Parte 1 | A experiência do passageiro em uma viagem de longa distância revela como o transporte rodoviário conecta pessoas, territórios e realidades no Brasil.
Meu nome é Kayque, tenho 28 anos, sou busólogo, amante de viagens e de aventuras. A busologia faz parte da minha vida desde que me entendo por gente — literalmente. Antes mesmo de eu conseguir explicar esse interesse, meus familiares já percebiam minha curiosidade ao ver ônibus passando pelas ruas e a alegria que eu sentia ao andar neles, mesmo nos trajetos mais simples do dia a dia. Para mim, estar dentro de um ônibus sempre foi uma das melhores sensações da vida.
Há alguns anos, faço parte de um grupo nacional de busólogos, entusiastas que transformaram o hobby em troca de conhecimento, experiências e, muitas vezes, oportunidades profissionais. Participamos de eventos organizados por grandes empresas do transporte rodoviário de passageiros, onde temos acesso a estruturas operacionais, tecnologias, novidades do setor e, principalmente, à troca de vivências que tornam esse interesse cada vez mais técnico e profissional. Curiosamente, foi justamente a busologia que me conduziu ao trabalho que exerço hoje, unindo paixão e carreira.
Em março de 2025, recebi um convite que daria origem a uma das viagens mais marcantes da minha vida. Fui convidado por Jonatha, influenciador da busologia no Brasil, para participar do Sétimo Encontro Internacional de Busólogos, realizado em Cuiabá, no Mato Grosso, com a Rio Novo Transportes e Turismo como empresa anfitriã. Desde o primeiro momento, o deslocamento começou a ser planejado. A decisão foi imediata: a viagem seria feita de ônibus. O que eu ainda não sabia era o tamanho da jornada que me aguardava.
A estrada como experiência

Iniciei a viagem na noite do dia quatro de junho, saindo de Belo Horizonte às vinte e uma e trinta, com destino a São Paulo. A ideia era encontrar amigos pelo caminho para seguirmos juntos até o destino. Cheguei a São Caetano do Sul na manhã seguinte e, em seguida, segui para a capital paulista, onde embarcaria na etapa mais longa da travessia. Entre Belo Horizonte e São Paulo, percorremos cerca de quinhentos e oitenta e sete quilômetros, com trecho passando por Guarulhos.
Às treze horas, partimos do Terminal Barra Funda, em São Paulo, rumo a Cuiabá. Éramos um grupo de dez amigos, todos apaixonados por estrada e por ônibus. À nossa frente, um trajeto de aproximadamente mil seiscentos e quinze quilômetros — possivelmente mais, como toda viagem longa costuma ser.
Seguimos pelo interior paulista, passando por cidades como Campinas, Americana, Limeira, São Carlos, Rio Claro, Araraquara e São José do Rio Preto, com embarques de passageiros ao longo do percurso. Após cerca de três horas de viagem, fizemos a primeira parada para lanche em um ponto de apoio da rede Graal, ainda no estado de São Paulo. Sem dúvidas, foi a parada com melhor estrutura e conforto para os passageiros em toda a viagem.
À medida que a noite avançava e nos aproximávamos da divisa com o Mato Grosso do Sul, o cansaço começava a aparecer. Em uma parada próxima à fronteira entre os estados, precisei fazer uma escolha comum em viagens longas: jantar ou tomar banho, já que o tempo era curto. Optei pelo banho. Não foi o melhor que já tomei — água demorando a esquentar, chão sujo, tudo muito rápido — mas desde o início eu sabia que essa viagem exigiria adaptações. Ainda assim, o simples fato de estar vivendo o que amo tornava qualquer desconforto secundário.
O tempo, o corpo e o caminho
Banho tomado, corpo relaxado, poltrona reclinada, coberta aberta para enfrentar o ar-condicionado da madrugada. Ao cruzarmos o Mato Grosso do Sul, veio também a troca de fuso horário. Acordei achando que havia dormido mais do que realmente dormi, até lembrar da mudança no relógio — confusão clássica de quem percorre longas distâncias.
Durante a madrugada, fizemos embarques em cidades como Aparecida do Taboado e Paranaíba. Ao passar por Aparecida do Taboado, foi inevitável lembrar — e até cantar — a canção popular que menciona a cidade. O ônibus ia enchendo aos poucos, e o som constante do motor acabou se transformando em uma verdadeira canção de ninar.
O dia amanheceu em Rio Verde (Goiás), por volta das sete e meia da manhã, com uma parada na rodoviária para embarque e desembarque de passageiros. Tivemos cerca de quinze minutos para um café da manhã rápido. A estrutura era simples, com algumas lanchonetes e um banheiro básico, cumprindo apenas o essencial.
Naquele momento, já acumulávamos mais de trinta horas de viagem desde Belo Horizonte. Ainda restavam cerca de setecentos quilômetros até Cuiabá. A estrada seguia à frente, e a viagem estava longe de terminar.
Parte 2 | Quando a viagem continua, a experiência do passageiro revela ainda mais sobre o transporte rodoviário e a mobilidade no Brasil.
A viagem segue
Já acumulávamos aproximadamente 34 horas de viagem desde Belo Horizonte, e ainda restavam cerca de 700 km até Cuiabá. Seguimos nosso trajeto pelo estado de Goiás passando por Jataí, Mineiros e Santa Rita do Araguaia, onde fizemos uma nova pausa para almoço antes de cruzar a divisa com o estado do Mato Grosso. Em Alto Araguaia, já no novo estado e com mais uma mudança de fuso horário, fizemos a primeira parada local.
Seguimos por Alto Garças e Rondonópolis, onde houve mais desembarques e uma pausa para lanche por volta das 15h45m. Segundo o Google Maps, estávamos a apenas 215 km do destino. Mas logo descobrimos que o caminho seria outro. Uma passageira nos informou que desembarcaria em uma cidade fora do trajeto indicado, e então percebemos que ainda rodaríamos cerca de 360 km adicionais, passando por Poxoréu, Alto Coité e Primavera do Leste.
Entre o cansaço e a convivência
Em Campo Verde, por volta das dezenove horas e trinta minutos, fizemos a última parada para refeição. Talvez a mais precária de toda a viagem: um pequeno bar à beira da BR-070, com estrutura mínima para receber um ônibus de viagem. Ao ver a comida exposta e o semblante de desagrado de outros passageiros, decidi não comer. Alguns amigos caminharam pelo acostamento até um comércio próximo e, no fim, nosso “jantar” foi um copo de refrigerante compartilhado entre risadas e histórias.
Seguimos viagem, com alguns desembarques feitos à beira da estrada, até que, por volta das vinte e três horas e trinta minutos, finalmente chegamos a Cuiabá — nosso destino final. Foram cerca de 2.500 km percorridos e aproximadamente 50 horas de viagem desde Belo Horizonte. Essa foi apenas a ida. A volta fica para uma próxima história.
A cada passageiro que desembarcava pelo caminho, ficava ali também a história de uma vida. Histórias de quem mudava de cidade em busca de uma oportunidade melhor, de quem viajava para recomeçar, de quem seguia para o reencontro com familiares que não se viam há anos. Presenciar os abraços nas rodoviárias, os sorrisos emocionados de quem chegava e os acenos de despedida de quem ficava marcaram profundamente essa viagem — e tocaram meu coração de uma forma especial.

Conectado ou não?
Em uma viagem tão longa como essa, além das particularidades naturais de um trajeto desse porte, existe um ponto que pode representar um dos maiores incômodos para muitos passageiros: a falta de conectividade. Vivemos em um mundo cada vez mais conectado, no qual estar online deixou de ser apenas entretenimento e passou a ser uma necessidade — seja para comunicação, informação ou sensação de segurança.
Durante toda essa jornada, o acesso à internet acontecia apenas quando o ônibus passava por algumas cidades, e mesmo assim de forma rápida, instável e limitada. Logo em seguida, voltávamos a ficar completamente desconectados, o que exigia criatividade para ocupar o tempo até o próximo sinal de rede. Para alguns, isso pode até ser um convite ao descanso e à contemplação; para outros, especialmente em viagens longas, representa ansiedade e insegurança por não conseguir se comunicar ou avisar familiares sobre o andamento da viagem.
É inevitável refletir que essa ainda é uma lacuna presente em grande parte das estradas brasileiras. Hoje, já existem tecnologias capazes de minimizar esse cenário, como soluções de internet via satélite, que poderiam permitir ao menos uma conectividade básica a bordo — talvez com restrições, como ocorre em algumas companhias aéreas, limitando o uso a mensagens e serviços essenciais. Ainda assim, isso já traria mais conforto, tranquilidade e sensação de cuidado ao passageiro.
A conectividade, no entanto, é apenas um dos pontos. Outras soluções tecnológicas também poderiam ser exploradas para melhorar a experiência do usuário, como o monitoramento do veículo em tempo real e a disponibilização de aplicativos das próprias empresas. Ferramentas assim poderiam reunir informações importantes, como venda de passagens, previsão de paradas, tempo estimado de chegada e acompanhamento do trajeto. Em viagens longas, sabemos que atrasos são, muitas vezes, inevitáveis — mas quando o passageiro tem acesso à informação, ele consegue se organizar melhor, reduzir a ansiedade e se sentir mais respeitado.
São pequenos detalhes que trazem à tona o verdadeiro significado de experiência do cliente. Não se trata apenas de transportar pessoas de um ponto a outro, mas de transportar vidas, histórias e expectativas. Vai além do que está previsto em lei ou em regulamentos: é sobre oferecer qualidade, cuidado e atenção em cada etapa da jornada.
Tenho plena consciência de que iniciativas como essas envolvem investimentos e podem refletir em aumento de custos — e, consequentemente, na tarifa final. Ainda assim, falo como usuário: prefiro pagar um pouco mais e ter a segurança, a informação e o sentimento de que a empresa se importa comigo enquanto passageiro.
Reforço, mais uma vez, que este relato não tem o objetivo de julgar ou avaliar o serviço prestado pelas empresas utilizadas nessa viagem. Muito pelo contrário: tudo o que era previsto foi bem executado. Este texto nasce apenas como um convite à reflexão — para empresas, profissionais do setor e passageiros — sobre a importância da busca constante por melhorias em um ramo tão essencial para o nosso país quanto o transporte rodoviário.
Amigos pelo caminho

Acima de tudo, fica o sentimento de gratidão. Eu amei viver essa aventura. Levo na mente e no coração inúmeros momentos que marcaram essa jornada. Mesmo diante das dificuldades, voltaria a encarar tudo novamente, sem hesitar. Na estrada, tive a oportunidade de fazer novas amizades, conversar com outros passageiros, ouvir causos e histórias de vida que só quem viaja de ônibus conhece.
Ao final dessa jornada, entendi que cruzar o Brasil em 2.500 km de ônibus me ensinou muito mais do que trajetos e distâncias. Aprendi que viajar de ônibus é compartilhar tempo, histórias e silêncios; é observar o país pelas janelas e, ao mesmo tempo, olhar para dentro. Houve tempo para contemplar paisagens, refletir, meditar e me reconectar comigo mesmo, tudo isso sentado em uma poltrona, com o mundo passando lentamente do lado de fora. Viajar de ônibus é, muitas vezes, mais do que um deslocamento: é um exercício de presença, escuta e humanidade.
O texto de Kayque Reverte foi publicado originalmente em nossa newsletter no Linkedin, Mobilidade Urbana Inteligente. Inscreva-se para receber em primeira mão nossos conteúdos.

